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sexta-feira, junho 29, 2007


3 de Outubro
"Vivem-se uns momentos estranhos. Ninguém pode aceitar a paz de Hitler; mas que guerra é que se vai fazer? Que significa precisamente a palavra «guerra»? Há um mês, quando foi impressa em letras enormes nos jornais, era um horror informe, qualquer coisa de confuso, mas forte. Agora já não está em parte nenhuma, nem é nada. Sinto-me descontraída e vaga, espero nem sei bem o quê. Parece que toda a gente está à espera. Aliás, é isso que impressiona logo, através dos livros de Pierrefeu, na história da guerra de 14: é uma espera de quatro anos, intercalada de massacres completamente inúteis; dir-se-ia que é o tempo que trabalha e só ele".
(Simone de Beauvoir em A Força da Idade)
Foto de Beauvoir, por Henri Cartier-Bresson

Surrealismo



"Por seu lado, Giacometti repetia esta frase com indignação; a seu ver, ninguém tinha ainda conseguido talhar ou modelar uma representação válida do rosto humano; era preciso partir do nada. Um rosto, dizia-nos ele, é um todo indivisível, um sentido, uma expressão; mas a matéria inerte —mármore, bronze, gesso—, pelo contrário, separa-se do infinito; cada parcela isola-se, contradiz o conjunto e destrói — o. Tentava assimilar a matéria até aos limites mais extremos do possível; deste modo, chegara a modelar estas cabeças quase sem volume, onde se inscrevia, pensava ele, a unidade do rosto humano, tal como este se oferece a um olhar realmente vivo. Talvez encontrasse um dia um outro meio de a arrancar à vertiginosa dispersão do espaço: por agora, não soubera inventar senão aquilo. Sartre, que desde a juventude se esforçava por compreender o real na sua verdade sintética, ficou singularmente impressionado com esta procura; o ponto de vista de Giacometti juntava-se ao da fenomenologia, visto que ele pretendia esculpir um rosto em situação, na sua existência em relação a outrem, à distância, ultrapassando assim os erros do idealismo subjectivo e os da falsa objectividade. Giacometti nunca tinha pensado que a arte se pudesse limitar a fazer brilhar as aparências; em compensação, a influência dos cubistas e dos surrealistas tinha-o arrastado, assim como a muitos artistas da época, a confundir o imaginário e o real: durante tempos ele trabalhara não para mostrar a realidade através de uma analogia material mas para fabricar coisas. Agora, criticava nos outros e nele próprio esta aberração. Falava de Mondrian, que, uma vez que as suas telas eram planas, se recusava a nelas inscrever imaginariamente as três dimensões: «Mas», dizia Giacometti com um sorriso cruel, «quando duas linhas se cruzam, há sempre uma que passa por cima da outra: os quadros dele não são planos!» Nunca ninguém tinha ido tão longe neste impasse como Mareei Duchamp, de quem Giacometti gostava muito. A princípio pintava quadros — entre outros o célebre Mariée mise à nu par sés célibataires, même. Mas um quadro só existe pelo olhar que o anima; Duchamp queria que as suas criações se mantivessem de pé sem nenhum auxílio; pôs-se a fazer, em mármore, cópias de bocados de açúcar; estes simulacros não o tinham satisfeito; fez objectos usuais, completamente reais, entre outros um xadrez; depois contentou-se em comprar pratos ou copos e assiná-los. Acabou por cruzar os braços".
(Simone de Beauvoir, em A Força da Idade)
Foto de Henri Cartier-Bresson - Alberto Giacometti - Paris, 1932.

"Sei hoje que, para me descrever, devo dizer primeiro: «Sou uma mulher»; mas a minha feminilidade nunca foi para mim um incómodo nem um álibi. De qualquer maneira, é um dos dados da minha história e não uma explicação".
(Simone de Beauvoir in A Força da Idade)
Foto de Elliot Erwitt - Simone de Beauvoir, Paris,1949.

"O mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles."
(Simone de Beauvoir)

"É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância
que a separava do homem, somente o trabalho poderá lhe
garantir uma independência concreta."
(Simone de Beauvoir)
Foto de Pierre Verger, (Peru) - 1939-1946